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Julio Cesar Medeiros

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domingo, 7 de abril de 2024

 

FICAR VELHO 

 “ Ficar velho é uma merda, mas é uma merda agradável. 

Vamos rir porque é muito divertido! “

(Octavio Raja Gabaglia)

 

Eu nasci num dia 7 de abril, e anos depois minha mãe dona Carminha contou que choveu muito neste dia. Como ela costumava ser detalhista em suas histórias, estranhei ter esquecido de dizer que nasci também num ano bissexto. Mas não creio ter chovido tanto quanto os dias de março deste ano até agora.

Durante a minha vida nunca pensei, me imaginei e nem tive medo de ficar velho, tinha medo de ficar doente, não poder mais me divertir, viajar, fotografar... 

Inclusive tinha a ambição de me tornar o melhor fotografo publicitário do Rio de Janeiro até os 33 anos, caso contrário cometeria suicídio, e cheguei a escrever uma carta despedida, e eu tinha apenas 22 anos na época. E essa carta foi achada por minha irmã Sonia Medeiros dois anos depois e causou um grande rebuliço entre familiares, amigos e uma apaixonada namorada. Então a carta foi queimada, eu não me tornei o melhor fotógrafo do Rio, não casei com a namorada, e resolvi viver até quando conseguir.

Os anos foram passando e as brincadeiras com mudança de idade sempre aconteciam, uns diziam que a melhor fase da vida era até os “inta” (30), mas quando entrasse nos “enta” (40) ia piorar muito, nos 50 e 60 era botar o pijama, encomendar o caixão e fazer logo o testamento. Pois é, eu passei fácil pelos 30, 40 e 50, já os 60 já me deixaram preocupado com a possibilidade de surgirem problemas físicos, alguma doença e até depressão, mas levantei a cabeça, sacudi a poeira e fiz uma grande feijoada para comemorar com amigos.

Entre a insegurança na chegada dos 60 e a expectativa por chegar agora aos 68 mudou muita coisa. Tinha me tornado uma pessoa amarga e as vezes agressiva, sem paciência e principalmente intolerante. Mas o tempo foi passando, e 2 anos depois, aconteceu a chegada da minha netinha, que me tornou um velho bobo e feliz. Me fez viajar no tempo, quando levava minha filha na escola, na praia, em festas da cidade, festas de amigos e até em boates, já que para sair de casa sem ela era dificílimo. Depois veio a pandemia que me deixou muito preocupado devido à violência e rapidez que as pessoas estavam indo embora, além da mídia irresponsável culpar os velhos pela disseminação da doença. E eu trancado em casa resolvi fazer uma viagem compacta ao meu Id. Voltei a ler bastante, transformei as crônicas que escrevi em um livro, cujo título é Crônicas Casos e Causos, criei o Licor Pimenta Búzios... Além de curti muito, minha netinha que hoje tem 6 anos. Ainda carrego umas poucas rabugices, porém tenho mais bom humor do que mal, e meu médico me proibiu dar ouvidos a idiotas. Mesmo assim no ano passado entrei num quadro de depressão enorme, não procurei ajuda de ninguém por achar que era apenas uma fase ruim e passageira mas não era, sofri muito e solitariamente dentro da minha casa, só tenho que agradecer muito todos os dias da minha vida, a paciência da minha companheira, assim como também da minha filha que foi por demais insistente em fazer com que eu fosse me exercitar numa academia, devido eu estar quase um sedentário, e estava mesmo, já que faltava apenas eu ir para o chuveiro de carro. Hoje tenho me sentido muito bem, a ponto de receber elogios do autêntico Sandro Peixoto sobre minha mudança. Levo minha neta na escola, estou escrevendo mais crônicas, vou à praia, academia, vejo o pôr do sol no Porto da Barra onde gosto de fotografar, encontro amigos, bebo umas cervejas, fumo charuto...

Cheguei a 68, está tudo bem, mas o 69 ... vão vir aquelas velhas perguntas. Já fez 69?  Vai fazer 69 quando? Agora você faz 69 todo dia né?

E VIVA BÚZIOS

 Julio Cesar Medeiros





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