29/07/13
Andre
Trigueiro
Foi
uma visita arrebatadora.
O
Papa endereçou mensagens pontuais a diferentes segmentos da sociedade ao longo
de toda a Jornada Mundial da Juventude.
Instigou
os jovens a irem para as ruas e “fazerem confusão”, em defesa dos espaços que
precisam ser ocupados por eles na sociedade.
“Sejam
revolucionários. Tenham a coragem de seguir contra a corrente. De serem
felizes”.
No
dia dos avós, abençoou os mais velhos e criticou a exclusão a que são
submetidos.
Na
favela de Varginha, lembrou da generosidade de quem é pobre quando se põe “mais
água no feijão”.
Em
Copacabana, fez uso de outra expressão idiomática tupiniquim ao recomendar que
se “bote fé, bote esperança e bote amor!”.
No
Theatro Municipal, defendeu a reabilitação da política, considerada por ele uma
das formas mais altas de caridade, e o diálogo permanente entre as partes
conflitantes: “Entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção
sempre possível: o diálogo”.
No
Sumaré, criticou o “clericalismo” e convidou o corpo da Igreja a sair da zona
de conforto em favor dos necessitados e ir para as ruas.
Em
resumo: o Papa disse a que veio e marcou novas e importantes posições em seu
recém-inaugurado pontificado.
Revelou-se
um pastor antenado com as demandas de seu tempo.
Mas
para um Papa chamado “Francisco”, inspirado no poverello de
Assis – o padroeiro da Ecologia – esta teria sido uma ótima oportunidade de
mencionar em algum momento da Jornada a maior crise ambiental da História da
Humanidade.
Não
apenas por este ser um assunto de interesse da maioria dos jovens, mas
principalmente pelo fato de que esta crise afeta diretamente os mais pobres.
São
os pobres, miseráveis e excluídos os que mais sentirão os efeitos da escassez
de água doce e limpa, da desertificação do solo, das mudanças climáticas e seus
efeitos devastadores (eventos extremos, elevação do nível do mar, mudança do
ciclo das chuvas, etc).
De
forma indireta, o Papa defendeu questões caras ao ambientalismo quando condenou
o consumismo, a cultura do descartável e do perecível, escolheu carros mais
simples como meio de transporte, recebeu índios no palco do Theatro Municipal
e, num gesto de simpatia, até trocou o solidéu por um cocar.
Mas,
para o primeiro Papa Francisco da História da Igreja, é enorme a expectativa de
que a sustentabilidade passe a estar presente de forma direta no discurso,
fecundando a palavra que orienta e esclarece multidões.
Único
país do mundo com nome de árvore, potência megabiodiversa, o Brasil seria o
lugar ideal para que em algumas palavras, Francisco relembrasse o quanto a
espécie humana depende visceralmente de um meio ambiente saudável e resiliente.
O
sistema condenado pelo Papa é aquele que discrimina os mais jovens, os mais
velhos e os índios, e exclui os que não têm dinheiro. Trata-se do mesmo sistema
que dilapida os recursos naturais como se não houvesse amanhã, arruinando o
nosso futuro comum.
Uma
coisa está relacionada à outra.
Francisco
tem um pontificado inteiro pela frente para a operação-desmonte desse sistema.
Que aquele que lhe empresta o nome o abençoe e proteja.
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